Fragmentos de Tempo

Cinema do passado
Das muitas versões literárias da história de Fausto, é a peça dramática de Christopher Marlowe que me inspira a maior admiração. Este é o homem moderno que abandona a visão teocêntrica e renega, num acto de desafio, Deus, oferecendo a sua alma a Lúcifer, “Arch-regent and commander of all spirits”. O Fausto de Marlowe é o Fausto que despreza Mefistófeles pela amargura que o arauto de Lúcifer sente em ter perdido the “joys of heaven”. O seu egoísmo não conhece limites e é inevitável a sua condenação aos fogos do Inferno.
Se a audácia do Fausto de Marlowe é maior, com o realizador alemão F. W. Murnau é Mefisto quem está empenhado em destruir a alma de um bom homem. Mesmo depois de ceder à influência diabólica, a essência de Fausto permanece incorruptível e o amor é o instrumento de redenção deste pobre velho alquimista. O jogo de contraste entre as trevas e a luz simboliza a própria dualidade a que se sujeita a alma de Fausto.

Das muitas versões literárias da história de Fausto, é a peça dramática de Christopher Marlowe que me inspira a maior admiração. Este é o homem moderno que abandona a visão teocêntrica e renega, num acto de desafio, Deus, oferecendo a sua alma a Lúcifer, “Arch-regent and commander of all spirits”. O Fausto de Marlowe é o Fausto que despreza Mefistófeles pela amargura que o arauto de Lúcifer sente em ter perdido the “joys of heaven”. O seu egoísmo não conhece limites e é inevitável a sua condenação aos fogos do Inferno.

Se a audácia do Fausto de Marlowe é maior, com o realizador alemão F. W. Murnau é Mefisto quem está empenhado em destruir a alma de um bom homem. Mesmo depois de ceder à influência diabólica, a essência de Fausto permanece incorruptível e o amor é o instrumento de redenção deste pobre velho alquimista. O jogo de contraste entre as trevas e a luz simboliza a própria dualidade a que se sujeita a alma de Fausto.

Quando Network de 1976 chegou ao grande público, o argumentista Paddy Chayefsky já era um nome celebrado pela crítica ao ter criado toda uma nova linguagem realista no cinema e televisão com raízes no kitchen sink drama. Network consegue a proeza de expor uma visão satírica do mundo da televisão em que já se sentem os efeitos distorcidos do jornalismo sensacionalista e pejado de drama que viria  ser tão dominante em anos futuros.
Mas mais do que a faceta visionária presente no argumento, Chayefsky (e não foi por acaso que Aaron Sorkin, provavelmente o mais importante argumentista da actualidade, o homenageou no seu discurso de vitória dos Óscares) era exímio a criar a interacção de personagens. O facto de o elenco ser constituído pelos melhores actores da época certamente ajudou a tornar o filme mais apelativo. A personagem de William Holden, Max Schumacher, apaixona-se pela jornalista fria e implacável desempenhada por Faye Dunaway, e toma a decisão de abandonar o seu casamento. A confrontação com a sua mulher (a actriz Beatrice Strange oscarizada por este papel, ambos os actores na imagem acima) é provavelmente uma das melhores cenas entre marido e mulher jamais realizada no grande ecrã, com diálogos absolutamente soberbos. 
Após confessar a sua paixão por outra mulher, a sua esposa não pode deixar de soltar toda a sua raiva. Because, after 25 years of building a home and raising a family and all  the senseless pain that we have inflicted on each other, I’m damned if  I’m going to stand here and have you tell me you’re in love with  somebody else. Because this isn’t a convention weekend with your  secretary, is it? Or – or some broad that you picked up after three  belts of booze. This is your great winter romance, isn’t it? Your last  roar of passion before you settle into your emeritus years. Is that  what’s left for me? Is that my share? She gets the winter passion, and I  get the dotage? What am I supposed to do? Am I supposed to sit at home  knitting and purling while you slink back like some penitent drunk? I’m  your wife, damn it. And, if you can’t work up a winter passion for me,  the least I require is respect and allegiance. I hurt. Don’t you  understand that? I hurt badly.   
É preciso dizer mais alguma coisa para vos convencer da força e beleza deste filme? E ele é notável em tantos outros aspectos…

Quando Network de 1976 chegou ao grande público, o argumentista Paddy Chayefsky já era um nome celebrado pela crítica ao ter criado toda uma nova linguagem realista no cinema e televisão com raízes no kitchen sink drama. Network consegue a proeza de expor uma visão satírica do mundo da televisão em que já se sentem os efeitos distorcidos do jornalismo sensacionalista e pejado de drama que viria  ser tão dominante em anos futuros.

Mas mais do que a faceta visionária presente no argumento, Chayefsky (e não foi por acaso que Aaron Sorkin, provavelmente o mais importante argumentista da actualidade, o homenageou no seu discurso de vitória dos Óscares) era exímio a criar a interacção de personagens. O facto de o elenco ser constituído pelos melhores actores da época certamente ajudou a tornar o filme mais apelativo. A personagem de William Holden, Max Schumacher, apaixona-se pela jornalista fria e implacável desempenhada por Faye Dunaway, e toma a decisão de abandonar o seu casamento. A confrontação com a sua mulher (a actriz Beatrice Strange oscarizada por este papel, ambos os actores na imagem acima) é provavelmente uma das melhores cenas entre marido e mulher jamais realizada no grande ecrã, com diálogos absolutamente soberbos. 

Após confessar a sua paixão por outra mulher, a sua esposa não pode deixar de soltar toda a sua raiva. Because, after 25 years of building a home and raising a family and all the senseless pain that we have inflicted on each other, I’m damned if I’m going to stand here and have you tell me you’re in love with somebody else. Because this isn’t a convention weekend with your secretary, is it? Or – or some broad that you picked up after three belts of booze. This is your great winter romance, isn’t it? Your last roar of passion before you settle into your emeritus years. Is that what’s left for me? Is that my share? She gets the winter passion, and I get the dotage? What am I supposed to do? Am I supposed to sit at home knitting and purling while you slink back like some penitent drunk? I’m your wife, damn it. And, if you can’t work up a winter passion for me, the least I require is respect and allegiance. I hurt. Don’t you understand that? I hurt badly.   

É preciso dizer mais alguma coisa para vos convencer da força e beleza deste filme? E ele é notável em tantos outros aspectos…

Conta-se que Hitchcock, de tão assombrado que ficara com a personagem de Tristana na última parte do filme de Buñuel de 1970, interpelou o realizador mexicano num desses jantares de Hollywood e murmurou extasiado, Ah aquela perna… Aquela perna…
Hitchcock sabia que nunca poderia alcançar a irreverência e ousadia de Buñuel, livre da censura e códigos rigídos americanos. Talvez a sua pena fosse realmente grande por não pode conceber uma personagem como Tristana. Pois ela é, de facto, única. Inocente e bela, a sua figura é diminuída pela doença. Ao contrário do esperado, a perda física de Tristana não reduz a sua condição, antes torna-a estranhamente mais apelativa. Mas é tarde demais para esta mulher. O seu coração foi ferido e está morto e só vive para exercer uma crueldade devastadora nos homens.

Conta-se que Hitchcock, de tão assombrado que ficara com a personagem de Tristana na última parte do filme de Buñuel de 1970, interpelou o realizador mexicano num desses jantares de Hollywood e murmurou extasiado, Ah aquela perna… Aquela perna…

Hitchcock sabia que nunca poderia alcançar a irreverência e ousadia de Buñuel, livre da censura e códigos rigídos americanos. Talvez a sua pena fosse realmente grande por não pode conceber uma personagem como Tristana. Pois ela é, de facto, única. Inocente e bela, a sua figura é diminuída pela doença. Ao contrário do esperado, a perda física de Tristana não reduz a sua condição, antes torna-a estranhamente mais apelativa. Mas é tarde demais para esta mulher. O seu coração foi ferido e está morto e só vive para exercer uma crueldade devastadora nos homens.

Um dia nublado de Março numa vasta metrópole que já serviu de cenário em inúmeros filmes. Só se é cidadão do mundo numa cidade destas.

Um dia nublado de Março numa vasta metrópole que já serviu de cenário em inúmeros filmes. Só se é cidadão do mundo numa cidade destas.

To be completely a woman you need a master, and in him a compass for  your life. You need a man you can look up to and respect. If you  dethrone him it’s no wonder that you are discontented, and discontented  women are not loved for long.
Esta frase de Dietrich quase soa a Histoire d’O mas a verdade é que houve demasiados homens na vida de Marlene. E muito poucos passaram a prova do seu olhar. 

To be completely a woman you need a master, and in him a compass for your life. You need a man you can look up to and respect. If you dethrone him it’s no wonder that you are discontented, and discontented women are not loved for long.

Esta frase de Dietrich quase soa a Histoire d’O mas a verdade é que houve demasiados homens na vida de Marlene. E muito poucos passaram a prova do seu olhar. 


Fragmentos de Tempo

Sempre tive uma grande amor por cinema do passado. É um termo demasiado vago mas é, na verdade, o cinema principalmente americano e europeu que foi realizado entre as décadas 20 e 70. Nasci nos anos 80 mas os filmes que inspiraram as maiores paixões foram sempre os do passado. Os mudos de Griffith, os romances a preto e branco dos anos 30 e 40, os westerns e filmes de proporções bíblicas, os anti-guerra que foram constantes ao longo desses anos. E depois começamos a observar as primeiras renúncias ao cinema considerado clássico e os anos 60 abrem com Peeping Tom que destruiu a carreira de Michael Powell.

Desprezei e rejeitei durante anos o vanguardismo da década 70 até finalmente ter aberto os olhos para a sua intensidade e poder. É uma década magnífica onde se estreou toda uma nova geração de actores e realizadores que souberam expressar as convulsões e desafios desses tempos. Peter Bogdanovich foi um deles, jovem então e na esteira do sucesso do seu primeiro grande filme, o clássico The Last Picture Show. A sua carreira posterior pode não ter sido das mais equilibradas mas era um homem que sabia escrever sobre cinema e sabia homenagear a herança dos seus antecessores. São as suas crónicas de cinema, Pieces of Time (traduzido para Português como Nacos de Tempo e publicado pela Livros Horizonte), que inspiraram o título deste blogue que irá tentar, humildemente, captar em fragmentos a força desse cinema do passado que é o que considero a mais poderosa e bela arte que o séc. XX nos ofereceu.