Das muitas versões literárias da história de Fausto, é a peça dramática de Christopher Marlowe que me inspira a maior admiração. Este é o homem moderno que abandona a visão teocêntrica e renega, num acto de desafio, Deus, oferecendo a sua alma a Lúcifer, “Arch-regent and commander of all spirits”. O Fausto de Marlowe é o Fausto que despreza Mefistófeles pela amargura que o arauto de Lúcifer sente em ter perdido the “joys of heaven”. O seu egoísmo não conhece limites e é inevitável a sua condenação aos fogos do Inferno.
Se a audácia do Fausto de Marlowe é maior, com o realizador alemão F. W. Murnau é Mefisto quem está empenhado em destruir a alma de um bom homem. Mesmo depois de ceder à influência diabólica, a essência de Fausto permanece incorruptível e o amor é o instrumento de redenção deste pobre velho alquimista. O jogo de contraste entre as trevas e a luz simboliza a própria dualidade a que se sujeita a alma de Fausto.